Em pé. Com a mala a seus pés como quem guarda as memórias do que ficou. O cabelo esvoaça à boleia da brisa leve que invade o terminal da cidade qual lufada de ar fresco que confirma o que acaba de decidir.
Olha à sua volta e sente-se estranhamente confortável no meio da multidão. Não é a única. Milhares de pessoas acorrem ao terminal, todos os dias, para seguirem com as suas vidas, pensou ela. Apercebe-se de que se encontra num lugar mágico, numa espécie de intervalo de tempo, onde o tudo e o nada se fundem. Numa fenda temporal que alberga encontros e desencontros, partidas e chegadas, sonhos e memórias do que já não volta. Um limbo entre a ansiedade de quem parte e a saudade de quem fica. Entre a cacofonia dos motores e das vozes mecânicas, que anunciam o próximo veículo, almejam-se sonhos, aventuras e novos caminhos. É um lugar de vozes esperançosas que, num convicto murmúrio, espelham a promessa de um futuro encontro. “Daqui a nada já nos vemos. Prometo.”, ouve ela. É um eco cruel da promessa de um regresso que, no seu caso, não existe. Eco de outras vozes que levam um pouco de si em cada despedida.
Estarei a fazer a coisa certa? A dúvida toma conta de si. Observa o espaço que a rodeia, escuro e cinzento, e lembra-se de que o terminal assume a arquitetura da essência da sua vida. Somos uma infinita sucessão de terminais, de partidas e de chegadas a novos portos ou aos mais recônditos do nosso passado. Enquanto esperamos pelo próximo autocarro, somos confrontados com a espera, na sua forma mais crua e impiedosa, que, acompanhada pela incerteza mental, nos coloca no abismo entre o aqui e o acolá, entre o aqui e o destino final.
Olha à sua volta e, por entre o ruído que a circunda, vê passar à sua frente crianças que espelham nos seus rostos a alegria de quem parte e na mãe a preocupação de quem cuida. Assaltam-na memórias da infância em que também ela corria atrás da mãe. Sorri e percebe que a nostalgia da aldeia a invade. Afinal de contas, o terminal também é isto — a nostalgia disfarçada de paredes de betão e cimento.
Olha para o seu reflexo escuro e turvo na janela da sala de espera. Para lá do pedaço de vidro, reconhece aquilo que sente. Incerteza, medo, mágoa, tristeza, angústia.
Sente que não há nada a fazer. Fugir é a melhor decisão. Olha-se como quem recorda viagens passadas em que fazer a mala era a antecipação das próprias viagens. Ao baixar o olhar para a mala inerte a seus pés, pergunta a si própria: Onde ficou o amor? Recorda-se do momento em que a fez. Entre lágrimas e angústia, dobrava a roupa e colocava-a dentro da mala que nunca pensou vir a usar para fugir. Era a « mala das viagens grandes”, “dos momentos felizes” que tantas vezes usaram em viagens a dois.
A voz grave e artificial do altifalante da estação interrompe o estado alienado em que se encontra, transportando-a para a voz seca e monótona do marido na noite anterior.
Casaram por impulso poucos meses depois de se conhecerem. O mundo abria-se-lhes como o terminal da cidade. Viajaram pelo planeta ao longo dos primeiros anos, numa frenética busca pelas maravilhas do planeta azul. Em sucessivas partidas e chegadas, procuraram a felicidade conjunta nos pontos mais recônditos do mundo. A cada paragem, o amor encontrava novas formas de ganhar raízes e a certeza de um futuro a dois começava a confirmar-se. Nasciam dentro deles certezas de um amor profundo e duradouro.
Percebe agora, com os olhos vidrados na mala a seus pés, que o princípio do fim começou com a rotina a instalar-se aos poucos. As viagens diminuíram, as saídas conjuntas começaram a escassear, o fulgor da paixão foi-se apagando, a vida foi-se fazendo mais por casa até que se fixou num ponto em que o caminho casa-trabalho, trabalho-casa se tornou o novo normal.
Os diálogos marcavam compasso entre tarefas domésticas e a vida no local de trabalho. A casa foi perdendo vida como a aldeia que a viu nascer. Já não se faziam os jantares de outrora, os convívios entre amigos tinham acabado. Ecoava apenas o som mecânico e rítmico da máquina de lavar a loiça após o jantar; um ciclo rebelde de água e metal que, todas as noites, parecia lavar a urgência de amar que outrora sentiram.
Não reconhecia o marido que ficava prostrado no sofá mal chegava a casa depois de um dia de trabalho. Não o reconhecia naqueles murmúrios que soltava quando lhe perguntava alguma coisa. Tinha saudades das conversas que viajavam pela noite fora e que terminavam com a possessão dos corpos, já cansados de falar.
Tentou várias vezes falar com ele para mudar as coisas. As saudades dos tempos em que conversavam sobre tudo, dos casais com quem falavam, com quem viajavam, com quem partilhavam uma vida que tinha tudo para dar certo ecoavam no abismo que os separava. Saudades dos tempos em que o jantar tinha de esperar, porque havia uma paixão por saciar. Saudades das noites de sono perdidas a rir, porque recordavam os tempos de namoro.
O brilho estéril do telemóvel hipnotizava o marido que se limitava a cuspir uns murmúrios de quem assentia, mas não ouvia. Ela procurava reavivar a felicidade de outros tempos e, na maioria das vezes, ouvia a voz indiferente do marido:
— Apaga a luz. Amanhã tenho de acordar cedo.
Olhava-o fixamente, surpreendida com tal insensibilidade e apatia. Desligava a luz, via o marido pôr o telemóvel a carregar e virar-se de costas para ela para adormecer, quase sempre, imediatamente. Os dois ali, na mesma cama, onde tinham sido felizes, já não passavam de dois corpos que descansavam e mal se falavam.
As noites repetiram-se incansavelmente.
Até que, como um instinto primitivo, a ideia da fuga começou a germinar na sua cabeça e rapidamente se transformou em certeza. Naquele que seria o seu último dia em casa fitara o relógio percebendo que o tempo jogava a seu favor. Três horas ditavam o regresso do marido a casa. Arrrumara-a silenciosamente como quem limpa os vestígios das memórias que viveu e que já não lhe pertencem. Quando se pusera em cima da cama para resgatar a mala do cimo do guarda-roupa, percebera que o pó acumulado era testemunha do tempo que tinham deixado para trás.
Recordara os momentos em que a faziam e de quando, na confusão das roupas, se beijavam perdidamente. A cada partida, nascia uma nova promessa de um amor renovado. Agora, era só ela. Dobrava apressadamente as roupas, entre lágrimas que despencavam. Não pensava muito no que levava, mas antes no que arrancara de si. Almejava simplesmente uma nova paragem, onde pudesse encontrar um novo sentido para a vida.
Saiu de casa olhando para a porta que acabara de fechar. O som grave da fechadura soava como um veredito final. Do lado de lá, ficava aquilo que parecia impossível de terminar. Viviam apenas as memórias da vida que sempre quisera ter e que agora caíram no silencioso pulsar da rotina. Do outro lado da porta, junto a si, o ar gélido da rua e a presença da mala, que, uma vez mais, cumpria o seu destino.
Atravessou a rua e seguiu em direção ao terminal que estava sepultado logo ao virar do quarteirão. Nunca tinha visto a estação a partir da sua perspetiva, de quem parte não para o destino ideal, mas para o desconhecido.
O bilhete, resgatado entre a confusão do ecrã e das mãos trémulas, era agora a sua única saída. Olhava inquieta para o relógio que figurava ao fundo da estação — aquele gigante de metal que, em contagem decrescente, ditava o aumento da sua mágoa. Faltava uma hora. Os mais longos 60 minutos para que o autocarro a levasse, numa espécie de fenda temporal, à aldeia onde o seu nome era sinónimo de infância e do saudoso colo da avó.
Ao seu redor, o formigueiro de pessoas que passava apressadamente tornara-se num borrão de pessoas desconhecidas. A estação adquiria novos tons, novos sons. A realidade começava a transfigurar-se: as vozes dos passageiros, as rodas das malas, que antes se faziam bem notar, as chávenas do café a pousar violentamente na máquina, a voz robótica e grave do altifalante, essa que era capaz de a teletransportar para outras dimensões, o arranque do autocarro, o chiar dos travões, os passageiros a correr de um lado para o outro com medo de perder a sua única saída, tudo isso se tornara num zumbido abafado e indistinguível, como se o próprio ar tivesse adquirido as propriedades químicas da água. No epicentro desse silêncio líquido, tentava ganhar consciência de onde estava e do que ouvia. Olhava para as pessoas que passavam, difusas e turvas, numa sucessiva corrida até à próxima paragem. Fixou no relógio. No autoritário dono do tempo cujos ponteiros se sucediam com pressa e sem misericórdia. Onde tudo parecia líquido e vago, havia uma voz que ganhava cada vez mais terreno, que invadia a estação sem piedade e que lhe sussurava num violento murmúrio: Estarás a fugir de casa ou de ti mesma?
A alguns metros de distância, no meio do oceano violento e turvo de pessoas, surge um vulto aparentemente imune a tudo o que o rodeia. A gravidade parecia ter escolhido aquele corpo inerte para cumprir meticulosamente o seu papel, criando-lhe raízes profundas que o ancoravam ao chão. Olhava-a, assustado. O corpo gritava por ação, os suores brotavam-lhe no cimo da testa, o coração palpitava à velocidade da primeira vez que a tinha visto, o ar tornava-se cada vez mais sufocante numa cruel guerra etérea entre movimento e estagnação.
O olhar dele atravessou a barreira líquida que os separava e congelou no dela. Hipnotizado, inerte, inquebrável, de uma profundidade e dimensão capazes de abafar a estação e todo o barulho que os rodeava. Ali, como um farol que vigia a imensidão do mar furioso, fitava a mulher que estava quase a perder.
Do outro lado da multidão, a visão dela, cada vez mais nítida, era agora capaz de distinguir os vultos que a cercavam. Começou a ter consciência de onde estava. Sabia que se encontrava na estação pronta para partir, derrotada por não conseguir salvar a relação. Amedrontada, percebeu que não conseguia distinguir nenhum som. O terminal tinha dado lugar a barulhos abafados, onde mal se percebia o altifalante que cuspia informações incompreensíveis. Lançou um olhar demorado e assustado para o gigante de metal suspenso por grandes fios de aço que pendiam do teto da estação. O relógio permanecia na sua impiedosa contagem decrescente — 10 minutos restantes.
O seu olhar continuava preso a ela. A mulher que tanto amava ia embora e parte da culpa era dele. Sabia disso. Tentava agora mover-se e arrancar as raízes que a gravidade lhe tinha imposto. Cada passo que dava era lento, deliberado e profundamente amargurado. Alternava o olhar rapidamente entre os olhos dela e a mala prostrada a seus pés, num misto de pânico e culpa. Cada passo que dava exigia forças que não possuía. A sua energia era sugada de uma forma inexplicável como se o terminal precisasse dela para se alimentar. Aproximava-se dela. O ruído dos autocarros sucedia-se numa violenta pressa para entrar e sair, as buzinas despertavam os mais distraídos, os passageiros desviavam-se dele desajeitadamente e nada o fazia parar. Aproximava-se cada vez mais da mulher até que o olhar dela tocou finalmente no seu.
Viu medo e surpresa nos olhos dela.
Ela não esperava vê-lo ali. Recordava-se da noite anterior e de como o marido foi insensível aos desabafos dela. A forma como se despediu e lhe virou as costas para adormecer deixaram-lhe marcas profundas e reforçaram dentro dela a certeza do fim. O marido aproximava-se a medo, lentamente, enquanto era trespassado pela multidão alheia ao casal. Sentia as mãos frias e molhadas, os dedos inquietos e as pernas trémulas. Ela via o mapa de mágoa e pânico que se desenhava no rosto dele e cujos lábios se moviam na sua direção. Confusa e em pânico, virou costas e agarrou na mala, impulsivamente, pronta para fugir da estação. Precisava de ar fresco.
Quase a chegar à saída do terminal, sente uma mão no seu braço que a impede de ir embora. Reconhece-lhe o calor e deixa-se ficar inerte e de costas para o marido. A bolha na qual estava inserida rebentou num violento estrondo que só ela ouviu e a estação irrompeu-lhe pelos ouvidos de forma cruel: a voz do altifalante voltava a cumprir o seu desígnio taciturno, as vozes das crianças que ansiavam por uma nova viagem, o chiar dos travões, o arrastão das malas pelos paralelos da estação. O mundo tinha, finalmente, recuperado a sua gravidade.
Sentiu a mão deslizar pelo seu braço até encontrar a mão gelada e húmida agarrando-a numa convicção que grita uma nova promessa de futuro. Os dedos foram ficando entrelaçados adivinhando uma nova esperança para o casal. Sentia a mulher tensa e triste. Derrotada, sente que falhou por não conseguir restaurar a união que os ligava. Era raro vê-la assim. Talvez por nunca ter olhado para ela da forma como deveria ser olhada. Refletiu que não lhe prestava muita atenção, porque se habituara à presença dela, ali, ao seu lado, no sofá. Não pensava que, talvez, a chama que os mantinha ligados fosse, aos poucos, perdendo a vida e acabasse por sucumbir. Tinha saudades do seu sorriso, do seu abraço, da sua felicidade. Recordava, enquanto sentia os dedos nervosos da mulher, as noites que passavam a falar, de projetos que desenhavam a dois de uma vida que só ainda estava no início. Aproximou-se dela, quebrando a última barreira que o terminal teimava em impor, e sussurou-lhe:
— Não vás. Não te quero perder.
A frase saiu-lhe num murmúrio desajeitado. Não de quem ordena algo ou de quem faz uma promessa convicta, mas antes de quem sabe que está a pedir o impossível a um coração cansado de tanto lutar. Não havia truques naquelas palavras, residia apenas a urgência de continuar a tentar.
Não se moveu ao ouvir as palavras do marido. Ficou inerte, capaz de sentir a pulsação dele na mão que agarrava. Gostaria de dizer o mesmo, mas o corpo não obedece; não diz nada. Larga a mala que agarrara como quem deita uma pedra na água e a vê afundar num vórtice tímido. Olha-o diretamente nos olhos e recorda ainda o homem que lhe mandara apagar a luz na noite anterior. A mágoa está longe de desaparecer.
Ali ficam, alheios à multidão que os rodeia, num intervalo de tempo entre o que foram e o que poderiam vir a ser. Olham agora para a mala, que permanece sem vida no chão. É um lembrete retangular de que algo tem de ser feito. Tentar de novo não é para o casal um recomeço puro e leve; é compreender que têm de carregar aquele peso a dois, um passo de cada vez, pelo corredor atento do terminal.