Concepção humana

A vida e o seu propósito serão sempre um dos maiores questionamentos da nossa existência. Qual será o sentido da vida? Afinal, o que estaremos nós aqui a fazer? Haverá algum propósito para algo maior ou será isto apenas uma curta passagem?

Para mim, a vida e o seu real significado têm sido um tanto quanto intrigantes e até mesmo perturbadores. A inexistência de quaisquer certezas sobre o que virá após a nossa morte, e de viver conscientemente num sobressalto – já que a qualquer instante tudo pode acabar, ou não – é algo avassalador. Esta nossa incapacidade de antever o nosso próprio fim, diz muito sobre a nossa pequenez e insignificância perante o que é efémero e predestinado, a morte. Reconhecer esta realidade, pode parecer algo bastante redutor, no entanto, não é nem incorreta nem muito menos descabida e merece, talvez, uma reflexão e maturidade para a aceitar.

Concluí que é possível identificar dois tipos distintos de morte: a morte física e a morte espiritual. A primeira, refere-se ao seu sentido literal, um ponto final na nossa existência mundana, o deixar de respirar, o fim do funcionamento do nosso corpo. Já a segunda, vai muito além disto. O ser apenas um corpo vazio desnutrido de alma e vontade de viver, um presente estado apático sem início nem fim, apenas um adiar da morte física “Vive porque a vida dura” e “Cadáver adiado que procria”.

A certo ponto, no meu pensamento, surge também o idealizar de uma “ferramenta”. “Ferramenta” esta que, por um lado, nos protege dos perigos, mas que, por outro, nos limita a liberdade e pode até aprisionar. No fundo isto tudo será sobre o medo, a nossa sombra impossível de escapar e que nos acompanha desde o instante em que começamos a ganhar consciência até ao instante em que a perdemos.

O medo pode ser realmente benéfico, na medida em que nos resguarda de situações vulneráveis, por exemplo, o medo pode bloquear-nos perante um precipício e impedir-nos de prosseguir, ou também nos pode impedir de levantar questões que nos possam prejudicar. Perante isto, pode-se concluir que o medo é uma das nossas únicas defesas e proteções.

Inconscientemente, ou não, é o medo que dita a maneira como cada indivíduo enfrenta a vida e também a forma como perspectivamos o ambiente que nos rodeia, e isto sim, é uma das nossas únicas certezas sobre o que é viver.

Depende de cada um de nós, ajustar e adaptar este sentimento face às adversidades. Moderar o medo, ou seja, limitar a nossa própria liberdade, é a base do nosso dia-a-dia. Todos os dias somos postos à prova e é o medo quem nos ajuda a tomar determinadas decisões. Posto isto, podemos classificar dois tipos distintos de pessoas. Os primeiros, serão aqueles que dão demasiada voz ao seu medo, são aqueles que cortam as asas à sua própria liberdade e que impedem o decorrer natural da vida, ou seja, perdem-se no seu medo e deixam de viver o que é verdadeiramente genuíno. Por outro lado, surge o segundo tipo, serão aqueles que aparentemente ignoram e não dão ouvidos ao seu próprio medo e pensam, também, que vivem a vida em todas as suas vertentes de forma crua e real.

Este segundo tipo de pessoa, na verdade, vive numa farsa, num falso estado de controlo e domínio sobre tudo o que o rodeia. Nenhuma decisão é tomada de forma independente, todas as nossas ações são condicionadas por inúmeros fatores, nem que sejam pelo próprio Destino que nos é atribuído.

Assim, é necessário o estabelecimento de um equilíbrio entre estes dois tipos de pessoas e, talvez, devêssemos levar a vida de forma tranquila e passiva, onde apenas o dia-a-dia regesse e o nosso percurso estivesse entregue ao Destino.

No entanto, este modo equilibrado e a entrega ao Destino levanta outra questão. Onde se pode encaixar aquela sensação fugaz que corta e invade como uma chama que nos cega e comanda, ao qual chamamos ambição e vontade de viver? Se a nossa vida já está predestinada, porque é que temos o impulso e o rasgo de procurar algo maior e melhor? Porque é que não conseguimos viver no conformismo?

Para mim, é mais do que frustrante saber que não existe um “manual” ou um apoio para nos guiar nos momentos de maior nevoeiro, onde o norte parece estar perdido. São nestes momentos em que estamos à deriva que muitas vezes nos questionamos sobre o porquê de a vida estar a tomar determinados contornos. Questionamos a justiça da vida e a possível lição que desta advém. Questionamos o bem e o mal. E tudo acaba com um lamento e um pedido de misericórdia, já que o Homem terá sempre de cumprir um papel de vitimização e de superioridade face aos de mais.

Perante o gigante que é o Universo, porquê nós? Porque é que um homem continua a querer o mal a outro igual a ele? Porque é que existem males inerentes ao nosso mundo? Porque é que a nossa essência está cada vez mais apodrecida? Afinal, para quê tudo isto?

Será o nosso propósito destruir o que um dia fora símbolo de união, impedir o desabrochar de mentes brilhantes e desejar mal a um igual a nós?

A sociedade está a entrar num beco onde reina o individualismo, num buraco tão fundo e tão obscuro com um ar de tal forma asfixiante, onde o tempo para compreender a nossa essência e a nossa finalidade é escasso, se não mesmo inexistente. Teremos então um sentido de vida individual e não coletivo?

A única conclusão plausível é que nunca saberemos objetivamente a razão clara para a nossa existência. Esta pode ser nenhuma, apenas somos fruto da união ao acaso de átomos que ao longo do tempo perdeu o potencial de ser algo digno de criar coisas belas. Talvez o real motivo para a nossa existência seja tão aberrante que o melhor será mesmo permanecer na ignorância sem questionar e aceitar de braços abertos tudo aquilo que nos seja destinado ou atribuído, seja isso mau ou bom.