Diz-se que o homem é um animal racional, mas tal afirmação carece da nota de rodapé que a modernidade se encarregou de redigir: o homem é, antes de tudo, um animal ocupado. Hoje, a existência não se valida pelo cogito cartesiano, mas sim pelo « notifico, logo existo ». Se não houver uma notificação a tremer no bolso, o cidadão contemporâneo entra num estado de angústia metafísica comparável à de um náufrago sem rede Wi-Fi.
Antigamente, os filósofos retiravam-se para jardins ou desertos para contemplar o Vazio. Nós, mais evoluídos, levamos o Vazio connosco no iPhone. Praticamos o mindfulness para aguentarmos o emprego que detestamos, e fazemos « jejum intermitente » – não por ascese espiritual, mas porque ler as notícias ao pequeno-almoço tira o apetite a qualquer um que mantenha a decência de ter estômago.
Assistimos, de monóculo na mão e escarro na alma, à glorificação da performance. O indivíduo médio acorda às cinco da manhã, não para ver a aurora (que, convenhamos, é um conteúdo gratuito e, portanto, sem valor de mercado), mas para esmagar o seu próprio espírito num ginásio de luzes fluorescentes. É o imperativo categórico da passadeira: correr quilómetros sem sair do mesmo sítio, o que se torna uma metáfora perfeita para a carreira do português de classe média.
Não contentes em vender o nosso tempo ao patronato, decidimos converter a própria subjetividade no novo dispositivo topo de gama. O lazer acabou por morrer, assassinado pela « monetização do hobby« . Já não se lê um livro por prazer; lê-se para extrair três insights que fiquem bem num post do Instagram. Até a melancolia, essa nobre e antiga companheira dos poetas, foi rebatizada como burnout e tratada com comprimidos para que a máquina não pare de produzir o nada. Somos, enfim, os contabilistas da nossa própria miséria, gerindo o « capital humano » com o rigor de quem conta moedas num naufrágio. Ignoramos que o Adamastor desta era não vive no mar, mas no gráfico de produtividade que teimamos em querer ver subir até ao céu.